Home \ Editorial \ Entre o Tejo e Lisboa

Luís Lopes

Terça-Feira, 15 de Setembro de 2009 às 14:45
Na última quinzena de Abril, o Governo português satisfez finalmente as pretensões dos produtores de vinho do Ribatejo e da Estremadura e rebaptizou as suas regiões com os nomes de, respectivamente, Tejo e Lisboa.

Mas, afinal, quais são as vantagens desta mudança de nome? Pelo menos em teoria, parece que a Estremadura vínica pode vir a ganhar mais alguma coisa do que o Ribatejo. O nome Estremadura tem uma imagem algo corroída no mercado português, pelo menos para os consumidores mais antigos, que ainda a ligam a grandes quantidades de vinho de baixa qualidade. Já no mercado externo, o nome Estremadura é praticamente desconhecido (o que não é mau de todo) mas pode ser erradamente ligado à Extremadura espanhola e aos fracos vinhos ali produzidos (o que é péssimo). Lisboa, pelo contrário, é um nome limpo, fácil de dizer, associado a uma cidade capital que apaixona quem a visita, um nome histórico e europeu, com boa imagem em Portugal e que pelo menos uma fatia de consumidores estrangeiros reconhece.
Quanto ao Ribatejo tem, com a Estremadura, a mesma imagem desgastada em Portugal e a mesma ausência de imagem lá fora. Mudar o nome para Tejo pode ajudar (mas pouco) em Portugal. No estrangeiro, duvido que muitos identifiquem a palavra Tejo com um rio, como os produtores ribatejanos pretendem. E se é verdade que boa parte das grandes regiões vinícolas do mundo estão fisicamente associadas a rios, essa associação não é imediata. Por exemplo, quantos consumidores estrangeiros (e portugueses!) sabem que Dão é o nome de um rio? Mas enfim, mesmo que a mudança de nome não seja tão eficaz quanto se pretende, mal não faz e algum bem há-de fazer.
O grande problema é que, mais uma vez, se perdeu uma oportunidade de ouro para fazer as coisas bem feitas. Como é que duas regiões vizinhas, que não conseguem certificar com denominação de origem mais do que uma pequena percentagem do que aquilo que produzem, que precisam desesperadamente de ganhar notoriedade e economia de escala, não são capazes de se entender e trabalhar em conjunto numa única região, de nome Lisboa? Essa era a solução lógica, foi proposta e defendida por pessoas de ambas as regiões, apoiada pelo ministério da tutela, e acabou por não viável porque Estremadura e Ribatejo não se entenderam. Não sei de quem foi a culpa, nem me interessa. Mas não pude deixar de me recordar da constituição das várias regiões do Ribatejo, em finais dos anos 80. A natural e óbvia região Ribatejo foi inviabilizada, depois de tremendas e acesas discussões, porque, basicamente, Cartaxo achava que tinha prestígio e vinhos substancialmente superiores aos das outras zonas ribatejanas e que merecia uma região só para si. E assim, se criou uma região para Cartaxo, outra para Almeirim, e outras tantas para Chamusca, Coruche, Santarém e Tomar… Hoje, é claro que nos rimos disto, mas na altura não teve piada nenhuma e em nada ajudou a consolidação da região vinícola do Ribatejo. Agora, de novo, o mesmo erro.
Fundamental, é que as duas regiões percebam que não basta alterar o nome de baptismo para que tudo corra melhor daí para a frente. Tejo e Lisboa têm evidente potencial como regiões vinícolas e têm produtores e vinhos de superior qualidade em diversos segmentos de preço. Para ganhar notoriedade, terão de fazer como fizeram todas as regiões de prestígio no mundo: promover-se através do melhor que possuem, eleger vinhos bandeira, divulgar os casos de sucesso, dentro e fora do país. E limpar a casa, ser mais exigente, deixar para trás o que não está à altura do desafio. Por exemplo, podia ter-se aproveitado a nova portaria da região Lisboa, para limpar a lista de castas autorizadas: Almafra, Ratinho, Cabinda, Parreira-Matias, Preto Cardana, Tinta Pomar, Valbom e tantas outras da mesma laia…
É que chamar à mesma coisa outro nome, não muda nada. Para mudar, é mesmo preciso mudar a coisa.
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