Home \ Editorial \ O momento certo

Luís Lopes

Terça-Feira, 15 de Setembro de 2009 às 14:47
A prova de vinhos tintos de 1999 publicada nesta edição, suscita-me inevitavelmente aquela velha questão que desde sempre assombra o espírito dos enófilos (não, não é “qual é o sentido da Vida”, esta é mais importante, mas igualmente impossível de responder): qual é o momento certo para beber um vinho?

A grande dificuldade na obtenção de uma resposta para esta questão, radica no facto de haver duas formas de encarar esse “nirvana vínico”, esse momento em que o vinho atinge a sua plenitude. Uma, mais “objectiva” (entre aspas claro, porque nisto do vinho a objectividade tem que se lhe diga) vê a plenitude naquele momento em que o vinho atinge o topo, em termos de equilíbrio, perfeição, complexidade de aromas e sabores, o momento imediatamente antes de, com maior ou menor velocidade, começar a perder algumas virtudes.
Outra, bem mais subjectiva, é considerar como o momento certo para beber um vinho, aquele ponto da sua evolução em que nos dá mais prazer beber.
Uns gostam de beber os vinhos mais novos, cheios de fruta e vigor. Outros gostam de os beber mais maduros, complexos e requintados. Presumo que ninguém gosta (ou não deveria gostar) de beber o vinho caído, cansado, defunto.
Regra geral, eu diria que a esmagadora maioria dos vinhos tintos portugueses e do mundo (deixemos de lado os brancos, os doces e os fortificados, para não complicar) estão no seu ponto mais alto quando chegam ao mercado, normalmente com um ou dois anos após a vindima. Encontram-se nesta categoria praticamente todos os vinhos provados no painel de tintos até €4 publicado nesta edição.
Se nos centramos nos vinhos tintos portugueses mais ambiciosos, aqueles que são, normalmente, vendidos acima de €20, o caso muda de figura. Estes vinhos têm uma evolução mais complexa e, sobretudo, mais imprevisível. Começa por, hoje em dia, serem colocados no mercado cedo demais, por vezes ainda “crus”, “embrulhados”, pouco harmoniosos. Não percebo, por exemplo, como é que dois tintos de 2007 (por vezes do mesmo produtor), um de €4 e outro de €40, aparecem à venda ao mesmo tempo. Infelizmente, esta parece ser a regra (sobretudo no Douro), não a excepção.
Vendidos cedo demais, estes vinhos são, na maior parte dos casos, bebidos cedo demais. Mas quando o apreciador evita bebê-lo logo e assume que o vinho merece algum descanso em garrafa, coloca-se de novo o problema: até onde deve ir? Claro que varia de vinho para vinho, de produtor para produtor, de região para região. Mas, generalizando, eu diria que ao quinto ou sexto ano de vida uma boa parte desses vinhos atingiu o seu momento alto, mesmo que só comecem a cair de forma perceptível passado mais um ou dois anos. Só os muito grandes continuam a crescer a partir do sexto ano e só os melhores entre os melhores ainda mostram ter algo de novo por revelar e oferecer a partir do décimo ano.
E é aqui que entra a componente do prazer. Devemos esperar, com “objectividade” e monitorização periódica, que o vinho atinja o seu ponto mais alto, ou devemos, “subjectivamente”, bebê-lo quando nos dá prazer, quase sempre na sua fase ascendente? Há dez anos atrás, optava de caras pela primeira hipótese. Hoje, a dois anos de entrar nos “cinquentas”, vejo-me cada vez mais a seguir a segunda. E a eterna pergunta, “qual é o momento certo para beber um vinho?”, continua, felizmente, sem resposta.
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