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Editorial
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Pensamentos de Verão
Terça-Feira, 15 de Setembro de 2009 às 14:48
No mês de Agosto, para muitos o mês das férias e do descanso, é prática corrente alimentar o corpo e o espírito com coisas leves. Longe de mim ir contra essa tradição. Mas como acredito que a mente, tal como o corpo, quando não é exercitada, enferruja, deixo neste espaço dois pequenos temas, para ocuparmos o espírito enquanto o mar rola na areia e fazemos horas para o jantar.
O primeiro é sugerido pelo principal painel de prova desta edição, dedicado aos topos de gama brancos do Douro e do Alentejo. Os que não têm memória curta, lembram-se que, há pouco mais de uma década, muitas cabeças pensantes com responsabilidades no sector do vinho, advogavam que estas duas regiões eram quase exclusivamente produtoras de tintos, e que qualquer tentativa de ali fazer um vinho branco acima do vulgar seria votada ao fracasso. Demasiado quentes para fazer bons vinhos brancos, diziam então. Douro e Alentejo, com armas e estratégias diferentes, encarregaram-se rapidamente de calar os cépticos. O Douro, tirou partido das vinhas plantadas nas zonas mais frescas, jogando com a altitude e a exposição solar. Vinhas muitas delas já de idade bem madura, com castas talvez pouco afirmativas e mediáticas (Rabigato, Viosinho, Códega, Gouveio, Malvasia...) mas que talvez por isso mesmo souberam valer pelo conjunto e pela capacidade de evidenciar não a sua personalidade individual mas as características únicas da terra que as viu nascer. O Alentejo seguiu outro caminho para fazer vinhos brancos de topo, apostando sobretudo naquela que é uma das poucas castas brancas nacionais de nobreza confirmada, Antão Vaz. Uma casta marcante, de forte personalidade, mas que não enjeita a companhia de outra variedade não menos nobre, a Arinto, para alcançar um casamento perfeito. Nestes novos brancos alentejanos, ao contrário do Douro, não é tanto o “terroir” que se evidencia, mas sim a categoria intrínseca das castas e o apuro técnico na vinha e na adega.
Moral da história: no mundo do vinho, as coisas mudam mais depressa do que aquilo que se imagina e a arte e engenho humanos não têm limites. Afirmações categóricas, do género “dali nunca sairá nada de verdadeiramente bom”, seja a respeito de uma região ou de um produtor, serão provavelmente desmentidas, e talvez ridicularizadas, alguns anos mais tarde. Aprendamos a olhar para os vinhos de espírito aberto, sem preconceitos, esperando sempre ser surpreendidos ao virar da esquina.
O segundo pensamento de Verão tem a ver com o extenso e variado leque de vinhos bons e baratos que se encontram nas prateleiras das garrafeiras e supermercados. Nunca, em Portugal, beber bem custou tão pouco. Numa época em que o dinheiro não abunda, esta oferta quase miraculosa de vinhos bem feitos, apetecíveis, por preços tão convidativos, é recebida de braços abertos pelo consumidor. Mas na base dessa excelente relação qualidade-preço não está nenhum milagre e sim a conjugação de duas coisas, uma muito boa, outra muito má. A positiva, deriva do elevado nível de competência atingido por diversos produtores nacionais, capazes hoje de tirar o máximo de qualidade e rentabilidade das suas vinhas e do equipamento enológico ao seu dispor, e fazê-lo de forma muito consistente, quase anulando as naturais variações de colheita para colheita. O aspecto negativo, vem do estado de desespero a que chegaram muitos outros produtores, com as adegas cheias e a poucos meses da próxima vindima, forçados assim a vender o vinho abaixo do preço que custou produzi-lo. Desespero que, como é habitual nestas circunstâncias, é grandemente aproveitado pelas cadeias de super e hipermercados para forçar a nota e, na negociação cliente-fornecedor, fazer pesar ainda mais o prato da balança para o seu lado. São as leis do mercado, dirão. É verdade. Mas quando compro por €2,99 um vinho que sei valer muito mais, não posso ignorar que a minha alegria pode ser a tristeza de outro.