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Enoturismo
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A assinatura de Siza no Douro
Texto Samuel Alemão • Fotos Ricardo Palma Veiga
Quinta-Feira, 25 de Junho de 2009 às 16:11
O que é que poderia faltar a uma das mais sólidas marcas vitivinícolas do Douro para agradar ao visitante, quando até já possuía uma notável casa de agro-turismo? Muito possivelmente, a beleza do traço rigoroso de Siza Vieira, mestre da arquitectura mundial. Uma “lacuna” superada, em breve, com a abertura do armazém de estágio e envelhecimento da Quinta do Portal. Uma daquelas obras que só melhoram a paisagem. A isso se junta uma gastronomia de classe.
Dois homens, com idade e estatuto claramente diferentes, mas a mesma atitude: conseguir conciliar a excelência do que fazem com a disponibilidade permanente para aprender e, assim, melhorarem ainda mais. Ganha quem usufrui do seu trabalho. Em princípio, Siza Vieira, 75 anos, arquitecto com um estatuto que dispensa apresentações, e Milton Ferreira, cozinheiro de 19 anos e, como é óbvio, em início de carreira, dificilmente teriam algo em comum. A Quinta do Portal, situada em Celeirós do Douro, em Sabrosa, junta-os. E põe-nos à nossa disposição. Não que a actividade que cada um realiza tenha alguma coisa a ver com a do outro, ainda que remotamente. Nada disso. A forma como ambos se entregam às suas artes, nesta quinta duriense, é que nos deixa rendidos.
Serve bem de exemplo para a maneira, simultaneamente arrojada e descomplexada, como os seus proprietários decidiram reinterpretar a longa tradição da mais nobre das regiões vinhateiras portuguesas. Implantada num local abençoado pela Natureza, a propriedade da família Mansilha Branco é, há muito, território de excelência na feitura de vinhos de qualidade. Trata-se de seguir o caminho que, a montante, a árvore genealógica indica haver começado tão longe como 1477 – data da primeira referência à produção vinícola, aquando da outorga a Dom Afonso de Mansilha da comenda de Oliveira pelo rei Dom Afonso V. Actualmente, o património agrícola do Portal é formado por cinco quintas, localizadas no Vale do Rio Pinhão, com um total superior a cem hectares de vinha: Quinta do Portal, Quinta dos Muros, Quinta do Confradeiro, Quinta da Abelheira e Quinta das Manuelas.
Qualidade enoturística
Mas o legado da terra está longe de tolher a vontade de reinvenção. A tradição não tem de ser um lastro, antes uma virtude inspiradora de novos caminhos. E por isso a modernidade também passa por aqui, como o atestam os dois mais recentes investimentos desta quinta comprada à Sandeman, em 1994. À já bem consolidada oferta enoturística, centralizada na Casa das Pipas e no cenário de relaxamento campestre onde ela se enquadra, juntam-se agora a força de uma obra de arquitectura contemporânea resultante do traço inconfundível de um mestre de classe mundial e a vontade de fazer da gastronomia mais exigente e criativa uma prática corrente. Duas linguagens inequívocas, dois argumentos de peso, uma mesma intencionalidade. A qualidade não tem que ser algo inacessível.
Siza Vieira sabe-o bem. Aliás, não tem feito outra coisa ao longo da sua carreira senão prová-lo através do seu génio. E tratou de, mais uma vez, o pôr em prática no armazém de estágio e envelhecimento de barricas que aqui desenhou. Uma obra notável, a estrear em breve. Parece redundante dizê-lo, mas torna-se inevitável, tal a inequívoca graça, ao mesmo tempo simples e sumptuosa, do edifício construído junto à adega e que será inaugurado em breve. Trata-se de um pavilhão patenteando um rigor e uma linearidade majestosas, marcando, por óbvio contraste, a paisagem rural cheia de vinha e arvoredo a toda a volta. “É, por natureza, um edifício ‘disciplinado’. São as próprias necessidades funcionais, espaciais e térmicas que lhe determinam a expressão. Surge isolado no espaço: disciplina extensível ao território”, assim o definiu, recentemente, o próprio autor do projecto.
Siza e os vinhos
Esta é a segunda incursão do mestre portuense no mundo dos vinhos. Senhor de uma longa e reconhecidíssima carreira, só há bem pouco tempo ouvimos falar da sua ligação a um projecto neste sector, com a construção da Adega Mayor, nas cercanias da vila alentejana de Campo Maior. Casa-ícone da incursão no mercado vitivinícola do comendador Rui Nabeiro, “o rei dos cafés”, esse projecto, inaugurado em 2007, logo se assumiu como uma referência na arquitectura nacional, evidenciando ainda a crescente atenção que os empresários do ramo prestam aos edifícios onde trabalham. E o mais recente ensaio de Siza promete não lhe ficar atrás, prevendo-se que também venha a atrair as atenções dos apaixonados pelas construções com identidade própria.
E existem pontos de contacto entre ambos os edifícios, embora o da Quinta do Portal se destine apenas a armazenamento. Um dos elementos em comum é a existência de um terraço no topo da construção, a partir do qual se pode desfrutar de uma vista magnífica, neste caso para a bastante acidentada, e repleta de acontecimentos, paisagem da região duriense. Além disso, a obra é portadora do inconfundível traço escrupuloso do mestre português. Como salienta o enólogo da casa, Paulo Coutinho, 39 anos, este “é um edifício altamente inteligível, que se percebe logo, pelo que as pessoas que o visitam podem percorrê-lo sozinhas”. São as linhas direitas, de uma geometria irrepreensível, que se evidenciam, tanto no exterior como lá dentro.
Condições ideais
São cerca de 4.700 metros quadrados de área construtiva moldada a betão e aço, com dois pisos destinados ao amadurecimento de vinhos do Porto, de mesa, de moscatéis e, a breve prazo, também de espumantes. O piso inferior (-1), com capacidade máxima de 3.000 barricas, destinar-se-á ao estágio de Portos e vinhos de mesa do Douro, sendo que os brancos e rosés dali sairão para engarrafamento apenas no Verão, e à medida das necessidades, para manter intactas as suas qualidades. Trata-se de uma sala com maior rotação dos vinhos do que a do piso térreo (ou piso 0), que foi pensado para estágios mais prolongados em barrica, especialmente de vinhos do Porto e moscatéis. São 1.350 barricas e 19 tonéis.
Toda a produção da empresa passará a estagiar nesses dois pisos, entre paredes de betão despojadas e nada mais, num cenário pautado pela serenidade e magnanimidade das coisas elementares. “Quando as casas tradicionais de Gaia começarem a vir para esta área, este será o modelo a seguir. A nova forma de estar no sector do vinho do Porto é esta”, afirma, pleno de confiança, Paulo Coutinho. O enólogo não esconde o entusiasmo pelas excelentes condições de trabalho oferecidas pelo imóvel, que se estabelece como culminar do investimento antes feito na reestruturação das vinhas e na ampliação da adega.
A contribuir para o acerto das condições ideais nas quais estagiará a produção do Portal – que conta já com diversos vinhos cuja qualidade foi reconhecida em Portugal e internacionalmente, como os Douro Auru 2001 e Grande Reserva 2006 ou o Porto Vintage 2003 – está a escolha dos materiais. O xisto e a cortiça, que revestem o betão e o aço, além de proporcionarem o revestimento mais indicado para a paisagem onde se insere o edifício, garantem as qualidades térmicas ideais para um armazém de envelhecimento de vinhos situado num local com um clima tão radical. Às áreas de estágio das barricas juntam-se um centro de visitas, um auditório com capacidade para 73 visitantes e a sala de provas.
Tudo o resto
Contudo, esta constituirá apenas mais uma razão para visitar a propriedade onde o enoturismo de qualidade é já uma tradição. Afinal, não será à toa que ostenta este ano o galardão Best Wine Tourism, para a categoria de práticas de enoturismo sustentável, atribuído pela Rede de Capitais de Grandes Vinhedos. É o reconhecimento do trabalho de preservação ambiental e boas práticas ecológicas levadas a cabo na Casa das Pipas, unidade de agro-turismo implantada no seio das vinhas. Na verdade, funciona como um hotel de excelsa qualidade, com os seus sete quartos duplos e três de categoria superior, sala panorâmica, biblioteca vínica, piscina exterior, ginásio e sala de refeições.
Dessas condições podem também beneficiar os usuários da Casa do Lagar, situada uma pouco mais abaixo, e ocupando uma antiga unidade de produção de azeite – outros dos produtos natos nesta propriedade. Nela se contam dois quartos familiares de quatro camas e outros dois duplos, todos decorados com evidente bom-gosto. São opção de alojamento acertada para quem demanda a serenidade da paisagem e as vistas desafogadas. Se quiser, pode participar nas actividades agrícolas ou apenas passear pela quinta. A visita à adega e a prova de vinhos são facto quase obrigatório. Compreende-se.
Disparatado seria igualmente dispensar a cozinha gourmet – ou, como lhe preferem apelidar os responsáveis do Portal, a gastronomia vínica. Aposta recente, visa aproveitar os sabores da região, dar-lhes uma configuração arrojada e casá-los com os vinhos. É claro que pode parecer forçado, ou exagerado, comparar a mestria de alguém como Siza com a do chefe Milton Ferreira, saído há meses da Escola de Hotelaria de Lamego. Mas, reconheça-se, serão poucos os que, aos 19 anos, terão o desembaraço necessário para fazer um excelente “lombinho de porco recheado com figos e frutos secos em crosta de ervas aromáticas sobre feijoada com fumeiro duriense e micro-vegetais a acompanhar, salvaguardado por jus de Quinta do Portal Grande Reserva tinto 2000”. Sabe tão bem quanto parece.
Quinta do Portal
EN 323 – Celeirós do Douro
5060 – 909 Sabrosa
Telefone: 259 937 000
Telemóvel: 96 951 90 21
Correio electrónico: reservas@quintadoportal.pt
Web: www.quintadoportal.pt
GPS: 41°14'19.49"N / 7°34'9.27"O
As refeições efectuadas na Quinta do Portal destinam-se tanto aos hóspedes como aqueles que façam uma reserva prévia. As mesmas incluem sempre os vinhos da casa, pré-definidos de acordo com a ementa. Há diversos programas de estadia e de actividades (viagem de barco no Douro, canoagem, BTT, passeio a cavalo) à disposição. É perguntar.
CLASSIFICAÇÃO
Originalidade (máx. 2): 1,5
Atendimento (máx. 2) 2
Prova de vinhos (máx.4):4
Venda directa (máx. 4):3,5
Arquitectura (máx. 3):3
Ligação à cultura (máx. 3):2
Ambiente/ Paisagem (máx. 2):1,5
Classificação: 17,5