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Enoturismo
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O Douro dos nossos sonhos
Texto: Samuel Alemão Fotos: Ricardo Palma Veiga
Terça-Feira, 15 de Setembro de 2009 às 00:00
Se acha que uma quinta no mais tradicional dos vales vinhateiros portugueses é um local que, apesar da incontestável beleza, dificilmente causa surpresa, poderá ter chegado o momento de rever tal tese. Integrado na rede Maisons de Reves, este hotel rural tem isso e muito mais. Considerado o mais caro do país, responde aos mais exigentes padrões de conforto. Mas tem como pontos fortes os mais frugais dos argumentos: vista, luz, espaço, silêncio. Enfim, um sossego.
Intitula-se “Quinta dos Sonhos” e é difícil não concordar. Poucas vezes, como esta, a sensação com que se fica após a estada num empreendimento turístico estará à altura das expectativas com que lá se chegou. Claro que os gostos se discutem e será sempre possível encontrar melhor e, com toda a certeza, diferente. Mas, conceda-se, a Quinta da Romaneira enche as medidas. E isso tem um preço, claro. Mais concretamente, 550 euros por pessoa e por noite, em quarto duplo, ou 880 euros por noite, em quarto single. No entanto, se estivermos a falar da pernoita num apartamento, os valores sobem substancialmente, tendo um visitante que desembolsar 1.100 euros por noite, se optar por reservar um quarto singular. A estadia para duas pessoas, nessa modalidade, suaviza o valore desembolsado.
A unidade turística de luxo situada em Cotas, concelho de Alijó, é frequentemente apontada como a mais cara de Portugal, mas seria injusto reduzir-lhe a identidade a tal faceta. Usufruir deste espaço, com todas as comodidades que os anfitriões disponibilizam aos que lá ficam hospedados e, em especial, fruir da singular beleza da paisagem do Vale do Douro assumem carácter de privilégio. Como tal, apenas estão ao alcance de alguns. Faz sentido, por isso, o reclamado epíteto onírico. Até porque a quinta, que tem três quilómetros de frente de rio no epicentro da região classificada como Património Mundial da Humanidade, constitui um dos vértices do triângulo dourado da cadeia francesa Maisons des Reves, juntamente com os exóticos Dar Ahlam (“casbah” marroquina no palmeiral de Skoura) e El Khiam Atlam (acampamento no deserto a sul de Marrocos). Gente empenhada em equiparar as palavras descanso e maravilhamento, sem dúvida.
E esforçam-se a sério para o conseguir também aqui. Tanto que se torna difícil decidir por onde começar a desfiar o elenco de virtudes desta quinta, inserida numa propriedade de 400 hectares resultantes da junção de dezena e meia de parcelas, e desdobrada por terrenos com um forte declive. Ela ocupa toda uma secção da margem direita do rio, desde a linha de água até ao topo de uma encosta. É exactamente por aqui que os visitantes entram, ziguezagueando de carro até lá baixo, num percurso de cinco quilómetros. A vista, uma espécie de zénite daquilo que a nossa memória visual usualmente retém do Douro, conquista de imediato. Muito possivelmente – e desculpem-nos a imodéstia da avaliação –, estaremos num dos locais cenograficamente mais belos do país.
Restaurante promete
Algures a meio-caminho dessa descida, surge outro dos fortes argumentos da Quinta da Romaneira – e que conveniente se revela para que ganhemos novo fôlego. O Redondo, assim chamado por se localizar numa rotunda, é um restaurante pronto a satisfazer os mais exigentes, sejam ou não clientes do hotel. Basta que façam reserva, obrigatoriamente. Aberto todo o ano, e com capacidade para quatro dezenas de comensais, alicia os potenciais interessados com sugestivos menus de degustação assinados pelos chefes Philippe Conticini, dos restaurantes La Table d’Anvers e Petrossian, em Paris, e Miguel Castro e Silva, do Bull & Bear, no Porto. O estabelecimento é uma confortável caixa de vidro, a partir da qual os olhos desfrutam da ampla paisagem do vale, enquanto o palato é reconfortado da forma mais gentil. Quando as condições meteorológicas assim o permitem, torna-se possível fazê-lo na esplanada. E a Primavera começou há pouco.
Percebe-se, então, que a cozinha joga em casa. E esta apreciação não é mero eufemismo, já que as possibilidades de fruir das refeições, incluídas no preçário do alojamento, são tantas quantas a imaginação permitir. Pelo menos, é isso que se promete, com sugestões tão diversas como um almoço no “Potager” – jardim de plantas ornamentais e aromáticas –, um jantar de tapas na sala de provas de vinhos, um almoço tradicional na “cantina”, mas também “um jantar onírico por baixo das laranjeiras ou um passeio degustativo ‘au fil des eaux’”. Por vezes, ocorrem piqueniques. Mas, quem preferir o recato doméstico deve buscar deleitação genuína na chocolataria. Fazendo uso de especiarias de regiões tão díspares como Ásia, África e outros locais longínquos, integradas num menu de diferentes chocolates quentes, oferece-se a possibilidade de os provar com os bolos feitos à antiga, segundo a tradição dos conventos portugueses.
TV não, ipod sim
Tal gulodice, desculpável, tem lugar numa das divisões da Quinta de Santa Clara, imóvel que, juntamente com a Quinta Velha, completa o corpo principal da Romaneira. Uma casa que são duas, afinal. No conjunto, formam um hotel rural que se completa em 13 quartos e meia dúzia de apartamentos distribuídos por diversos pontos da propriedade – dois dos quais dispondo de um par de quartos. Todos eles estão equipados com aquecimento, ar condicionado e uma lareira e, mais importante, não têm televisão, nem telefone. O que há são leitores individuais de DVD ou um ipod, contendo 500 músicas, proposto ao visitante, à chegada. Pode até ser ligado ao sistema de som que ambienta a piscina interior aquecida – equipamento com 35 metros de comprimento, rodeado por revestimentos a madeira e que se localiza no espaço da antiga adega, juntamente com a sauna, uma sala de provas e uma sala para reuniões com videoprojector.
Se se preferir, o vento a volutear pela imensidão do vale do “Rio do Ouro” – como em tempos o baptizou em película o cineasta Paulo Rocha – desempenha cabalmente as vezes de banda sonora. É que, se virmos bem, a maior ostentação desta unidade de excelência acaba por ser aquela que a Natureza disponibiliza. Como bem o sublinham os cintilantes feixes solares de tom alaranjado que, ao final da tarde, se projectam no soalho em madeira dos quartos. Cada aposento, tal como as restantes dependências das duas casas preparadas para receber hóspedes, funciona como um autêntico compêndio do bom-gosto no que à decoração diz respeito. De uma sobriedade feliz, as divisões expõem uma grande colecção de peças, muito variadas, que denotam admiração pelas culturas tradicionais de diversos pontos do planeta. Com especial ênfase, na Quinta Velha, por aqueles lugares onde os portugueses passaram, noutros tempos, e mais ligada à tradição britânica, na Quinta Dona Clara.
Em casa
O objectivo é – e apesar desta separação “temática” – homenagear, em cada quarto, os Descobrimentos, através de peças de artesanato e arte popular de África, da Índia, do Brasil ou de outros locais por onde os nossos antepassados andaram. Tais elementos casam, na perfeição, com a mescla de estilos contemporâneo e clássico dos acabamentos das habitações, sendo especialmente bem conseguida nas casas de banho individualizadas. “A cada hóspede, queremos fazê-lo sentir como se estivesse em casa”, explica Sónia Fernandes, responsável pelo departamento turístico da Romaneira, e que garante tudo fazer para mimar os que lá chegam. “Sou capaz de estar uma hora ou duas a falar com um cliente”, assegura, sem deixar de salientar que, se assim for seu desejo, ao turista é assegurada a regalia do total isolamento em relação aos demais. Só tem que escolher onde ficar alojado.
A Quinta Dona Clara é a “casa-mãe”, nela agregando alguns elementos de um tradicional lar português de famílias abastadas. Há uma sala para ouvir música e uma biblioteca, mas também um bilhar, uma sala de jantar, uma sala de chá e uma varanda debruçada sobre o Douro. Sob o seu tecto, e a pisar um pavimento de madeira escura, sentimo-nos num lugar com a solidez que só os anos podem conferir. A capela adjacente atesta-o. Assim como o antigo anexo, denominado Les Comptoirs, no qual toda a ornamentação se deixa levar pelo imaginário de gesta marítima, com adereços com tanto de belo como de inusitado. No conjunto, anexo incluído, este núcleo conta seis quartos e três apartamentos.
Relaxado
Um quarto mais tem a Quinta Velha, considerada a “casa de campo” da propriedade. Construída em 1854, é composta por três grandes zonas de lazer: um salão, uma sala de jantar e o grande jardim de Inverno. E esta divisão, na sua grandeza relaxada, dificilmente pode deixar de seduzir, nem que seja pelo inesperado das colecções de insectos e borboletas expostas. O mundo natural, em especial a Amazónia, prevalece como elemento inspirador, seja pela presença de acervos de espécies animais e vegetais, como pelas peças e utensílios dos povos ditos “primitivos” que nela habitam. O Jardim de Inverno era o local onde se produzia azeite e, desse período, manteve a estrutura do telhado, em madeira antiga. Neste conjunto, que conta também com uma piscina exterior e com os anexos reminiscentes de anteriores valências agrárias da casa, existe ainda uma cozinha tradicional com um forno a lenha para cozer pão e um refeitório para as vindimas.
Estamos numa casa de vinhos, convém não esquecê-lo. Da colheita passada, resultaram 30 mil litros destinados à feitura de vinho do Porto e o dobro para vinhos de mesa de qualidade. Os planos dos proprietários, que entregaram a batuta enológica a António Agrellos, contemplam o aumento da produção dos primeiros. Mas sem descurar os segundos. Sónia Fernandes faz questão de salientar que o objectivo passa por, recorrendo aos 76 hectares de vinha da Romaneira – quatro dezenas dos quais replantados há poucos anos –, “produzir Vintage nos Portos e grandes vinhos de mesa”. Pode averiguar se já chegaram a esse ponto, dando uma saltada à nova adega, situada lá em cima, junto à estrada, e que permite pisa a pé. É que os sonhos, às vezes, começam da forma mais prosaica.