Home \ Enoturismo \ Paço dos Cunhas de Santar: o Dão com classe

Texto: Samuel Alemão Fotos: Ricardo Palma Veiga

Quarta-Feira, 28 de Janeiro de 2009 às 15:37
A beirã vila de Santar já era conhecida no mundo dos vinhos pelas colheitas saídas da Casa com o seu nome. Terra de inabaláveis tradições, vê agora o Paço dos Cunhas ser reabilitado pelo grupo Dão Sul, que ali criou uma unidade de enoturismo de alta qualidade. Um belo edifício seiscentista alberga um restaurante que promete tornar-se referência na região e abre-se a todos os que queiram saber mais sobre vinho e comida.

Ao entrar na loja e winebar do Paço dos Cunhas de Santar, e logo depois de admirar a gama de garrafas em venda nas prateleiras, a atenção do visitante desvia-se, quase sem querer, para o lado oposto. Na parede, lado a lado e protegidas por molduras de vidro, duas primeiras páginas do semanário Expresso, com um tom amarelado que irrefutavelmente lhes dá a idade de outras épocas, exercem uma invulgar atracção junto das almas com o mínimo de curiosidade. Um olhar mais atento rapidamente desvenda as datas 20 e 27 de Abril de 1974 em cada uma delas. Uma semana de intervalo, descubra as diferenças, desafia-nos a mente. A História em andamento.
O tempo é uma máquina imparável – apesar das voltas que dá, da repetição de alguns comportamentos e da reincidência de certos personagens –, provam-nos as folhas de jornal encontradas no espólio da vizinha Casa do Soito, que faz parte da mesma propriedade. Quando, há meia dúzia de anos, os responsáveis da Dão Sul decidiram comprá-la ao seu dono, senhor de idade avançada, depararam-se com montanhas de evidências desse fluxo cronológico, acumuladas por gerações de anteriores locatários. Até uma notável colecção de armaduras e material bélico lá andava. Não nos admiremos. Afinal, é o resultado de quatro séculos de existência, iniciada com a construção do paço, em 1609.

Valioso espólio
A Casa do Soito, que pertenceu à família Coelho do Amaral de Santar e da qual faz parte uma quinta em que se contam 25 hectares de vinha, mas também hortas, pomares e zona arbustiva, tem como elemento central um palacete erguido no século XVIII. Nele se pretende, mais tarde, fazer surgir um hotel de qualidade condicente com o seu recheio – que, além de documentos variados e artefactos militares, conta com valiosos exemplares de mobiliário, quadros, louças, algumas da dinastia Ming, mas também peças de marfim, cobre, vidros, cristais e estanhos. Além de um notável recinto de armas e armaduras, o edifício possui um grande salão de baile. Nele existe um piano considerado muito antigo e com grande valor. Baús, mesas, contadores, armários, cómodas, camas e uma valiosa biblioteca albergam-se também sob os tectos trabalhados pormenorizadamente à mão.
Tudo isso se verá mais tarde. Por enquanto, apenas se pode contemplar o seu exterior, a partir do cuidado jardim, no qual se enumeram alguns exemplares singulares e árvores com cerca de três séculos. A ele se chega depois de passar por uma área verde que junta a Casa do Soito ao Paço dos Cunhas, duas edificações de épocas distintas, mas que estabelecem a unidade de um mesmo conjunto patrimonial. A entrada faz-se através do portão principal e do belo átrio do paço agora reabilitado – que, desde Setembro, começou a funcionar como a mais recente unidade de enoturismo do grupo que já tinha na Casa de Santar um dos seus ícones.

Paredes de granito
Optou-se por recuperar logo o mais antigo dos dois edifícios por uma razão bem prosaica. “A ideia inicial até era fazer, em primeiro lugar, a reabilitação da Casa do Soito, mas decidimos alterar as prioridades devido ao adiantado estado de degradação do paço”, explica João Carvalho, responsável pelo enoturismo da Dão Sul, que recorda a necessidade de se proceder à remoção do telhado para que as paredes da secular construção não caíssem. Procedeu-se ao reforço da estrutura, aproveitando e melhorando a solidez granítica original. Um material que confere encanto ímpar a este espaço incrustado no núcleo urbano da vila de Santar, situada no município beirão de Nelas e no coração da região vinícola do Dão.
A povoação, crescida à sombra do solar da Casa de Santar (séculos XVII e XVIII), mantém, apesar de uns quantos “mamarrachos” plantados aqui e ali, uma certa homogeneidade arquitectónica, dentro de uma sólida linha tradicional. Respeitando tais princípios da preservação de uma importante memória histórica, o arquitecto Pedro Mateus, com ateliê no Porto, realizou o notável trabalho de reabilitação de um edifício erguido, no final da primeira década do século XVII, à imagem do estilo renascentista italiano, sob ordens de Dom Pedro da Cunha.

Conforto e sofisticação
Pegando nesse legado, o arquitecto – que também está a fazer o projecto de recuperação da Casa do Soito e de cujo traço se partiu para a construção da arrojada adega em forma de barrica da Quinta do Encontro, na Bairrada – recriou um ambiente de grande conforto e sofisticação. Apesar do peso da pedra e dos anos, o que se sente é uma enorme leveza, a que não será alheia a opção pelo despojamento do espaço. Nada de excessos, apenas o essencial. O resultado é a sensação de se estar dentro de um edifício contemporâneo – o que, em parte, é verdade, já que o interior foi concebido de raiz, com excepção da sala do lagar.
Essa dependência aproveita de forma exemplar a antiga adega, convertendo-a numa sala destinada a encontros de empresas ou refeições para grupos mais alargados – até 120 pessoas. Os lagares de pedra, localizados num plano mais elevado, foram conservados e, louve-se o arrojo, estão preparados para servirem de púlpito para alguém discursar ou mesmo funcionarem como palco para uma qualquer actuação artística, como já aconteceu com um conjunto de jazz. Para reuniões de grupos mais pequenos, existe a sala do primeiro andar, onde é possível provar um vinho à lareira.

Comida e vinho
Mas a ideia é ocupar esse espaço com workshops sobre o vinho e, muito especialmente, a comida e a relação que ela pode ter com a bebida. Os denominados showcooking, sessões onde os interessados assistirão à confecção de pratos e ouvirão dicas de quem sabe do assunto, passarão a ter lugar nessa dependência com regularidade, tal como algumas provas de vinhos. Estas também podem decorrer no winebar e, por norma, incluem a prova de quatro ou cinco referências distintas da Dão Sul, acompanhadas de queijo da serra, broa de milho e bolachas.
Mas, neste momento, será justo dizê-lo, um dos grandes atractivos do Paço dos Cunhas de Santar está mesmo ao lado da loja. O restaurante chefiado pelo jovem Luís Almeida, de 22 anos, e tutelado pelo não muito mais velho Diogo Rocha, 25 anos, chefe de cozinha do grupo, constitui-se já como uma referência na região, apesar de estar de portas abertas há tão pouco tempo. O que propõem é uma gastronomia baseada em coisas portuguesas – como enchidos, castanhas ou queijo da serra –, à imagem do que os outros à volta também fazem, mas diferindo na forma apurada como a apresentam. “Fazemos uma cozinha de autor com produtos tradicionais”, diz Luís Almeida.

Um deleite
Comece-se pelas entradas, nas quais se pode encontrar coisas como um fantástico creme de castanhas, onde entram também peito de codorniz, trufa laminada e telha de cenoura, ou uma trouxa de mariscos acompanhada de creme de abóbora, emulsão de coentros e alho francês. Há também empada de enchidos tradicionais, guarnecida por acelga, shot de tomate e cebolinho. A ideia é mudar a carta sempre que se entra numa nova estação, recorrendo aos respectivos produtos e fazendo, invariavelmente, o seu casamento com o vinho, salienta o chef Diogo Rocha.
Essa preocupação é evidente, por exemplo, naquela que se assume já como uma das bandeiras do estabelecimento: o enrolado de polvo. O prato é escoltado por frescos salteados, tomilho de limão e redução de vinho do Paços dos Cunhas de Santar, o da casa, portanto. Provamo-lo e ficamos convencidos. Para os mais dados à carne, da carta em vigor no último trimestre acenava uma tentadora bochecha de novilho, com salada tépida de batata assada com presunto pata negra, ervilha torta e emulsão de pimento.
Das sobremesas, provámos creme de arroz doce, com semi-frio de canela e estaladiço de limão. Recomendamos. Mas podia ter sido também pudim de laranja, com mousse de chocolate e sementes de papoila ou até pão-de-ló, com sorvete de citrinos e hortelã. Cada uma delas faz parte de um dos três menus de degustação dedicados, respectivamente, às colheitas Vinha do Contador, Paço dos Cunhas ou Santar. Vale a pena lá dar uma saltada, nem que seja para beber um café na esplanada do magnífico átrio do paço.


Paço dos Cunhas de Santar



Largo do Paço, 3520 Santar

Nelas

Telefone: 232945452/ 965667899

Fax: 232961203

E-mail: daosul@daosul.com

Web: www.daosul.com

GPS: 40º´34'20'' N / 7º 53' 30'' W


O restaurante e a loja estão abertos todos os dias. A loja funciona das 9 horas às 22h, enquanto o restaurante, com capacidade para 35 pessoas, funciona do meio-dia às 15 horas e das 19h às 22h. A sala de eventos tem capacidade para acolher 120 pessoas. Os workshops de vinhos incluem apresentação, provas e atribuição de diploma. A prova mais barata fica por 7,5 euros.Originalidade (máx. 2)1,5
Atendimento (máx. 2)2
Prova de vinhos (máx.4)3,5
Venda directa (máx. 4)4
Arquitectura (máx. 3)2,5
Ligação à cultura (máx. 3)3
Paisagem/Ambiente (máx. 2)1,5
CLASSIFICAÇÃO18