Home \ Enoturismo \ Quinta da Chocapalha: tradição renovada na Estremadura

Samuel Alemão

Quinta-Feira, 12 de Fevereiro de 2009 às 18:01
Uma propriedade agrícola de Alenquer, com tradições vinícolas de quase dois séculos, ganhou novo fôlego desde que começou a fazer vinhos de marca própria.

Os actuais proprietários olham para o futuro com optimismo, confiantes no trabalho da enóloga, a sua filha Sandra Tavares da Silva. Aos visitantes oferece-se o prazer de provar o resultado da vinificação das uvas saídas dos terrenos que em tempos pertenceram a um escocês. Com marcação, o enófilo pode visitar as vinhas, a adega e até almoçar. Tem é de trazer vontade de conhecer o vinho e as pessoas que o fazem. Uma casa de afectos.

As despedidas já estavam feitas, mas Paulo Tavares da Silva decide voltar atrás. Antes de partir para uma reunião de negócios e deixar as visitas na companhia da esposa Alice, confessa: “Esqueci-me de lhe dizer uma coisa. Tudo isto só é possível porque o fazemos com muito amor, obriga-nos a uma entrega total, sem reservas”. Afirma-o com os olhos a perscrutar o vazio, como se buscasse as palavras certas, as que melhor sintetizassem a manhã de conversa sobre o projecto que o ocupa há duas décadas. A Quinta da Chocapalha é uma prova de amor, o resultado da dedicação de uma família a uma casa com história. E o vinho tem nela um papel determinante, mais importante do que qualquer outra coisa.
Uma herança que se foi renovando parcimoniosamente, até à chegada do casal, em 1987, altura em que ganhou novo fôlego. Sob a direcção técnica da conhecida enóloga Sandra Tavares da Silva, filha dos proprietários, os últimos anos têm conhecido uma evolução notável. A ajudá-la está agora Diogo Sepúlveda, jovem técnico de 25 anos. São 45 hectares de vinha espalhados pelas redondezas da Aldeia Galega da Merceana, concelho de Alenquer, tendo como epicentro uma casa construída nos finais do século XVIII, e que pertenceu ao escocês Diogo Duff durante um largo período do século seguinte. Aos olhos do visitante oferece-se uma paisagem que se identifica logo como sendo da Estremadura, com os seus altos e baixos, pequenos montes, curvas e contracurvas, vegetação abundante mas longe de ser exuberante e um povoamento disperso, num todo equilibrado e repleto de planos sobrepostos. A Serra de Montejunto ajuda a definir um microclima.
Um regalo para quem preza a paz do campo, a pureza dos ares, o silêncio entrecortado ocasionalmente pelo chilrear da passarada, mas ao mesmo tempo aprecia a presença humana. Tudo isso pode levar uma pessoa a encostar o carro a uma berma da estrada e enveredar por uma revigorante caminhada pelos inúmeros trilhos existentes na região. Não é preciso estar munido de um espírito talhado para grandes aventuras, afinal até fica bem próximo de Lisboa – de onde se pode chegar vindo pelas auto-estradas do Oeste (A8) ou do Norte (A1). A prova dessa imensa potencialidade está na motivação com que Paulo Tavares da Silva, 65 anos, fala na criação de uma estrutura de promoção turística das quintas com actividades vinícolas do município de Alenquer. A concentração de herdades deste género na zona é grande.

Refúgio à beira de Lisboa
Mas quando a Quinta da Chocapalha foi adquirida, as preocupações vitícolas estavam longe de lhe ocupar a mente. Estávamos no final da década de 80 e o oficial da Armada, então com 45 anos, tinha planos para ficar com a propriedade familiar, noutra região, que não se materializaram. Ele e a mulher queriam apenas um local para reunir a família e que possibilitasse um certo afastamento da agitação citadina. Acabaram por comprar esta propriedade, que “estava muito em baixo, com vinhas maltratadas”. Em 1989, deu-se início à recuperação e substituição dos encepamentos, num processo que durou até 1994. Devido às imposições legais em vigor, na altura, a qualidade acabou por ficar aquém do desejado, o que motivou o início de um novo replantio, há cerca de três anos. Os resultados já obtidos são animadores.
Mas, por agora, os pensamentos da família Tavares da Silva ocupam-se com a construção da nova adega da Quinta da Chocapalha. O desejo de a ver edificada é grande, ao ponto de Alice acreditar que ela estará pronta a tempo de receber a próxima vindima. Trata-se de uma visão optimista para uma construção de desenho arrojado, a erguer num declive situado a poucas dezenas de metros da actual adega, e que deverá catapultar de vez o nome desta casa vinícola, esperam os seus proprietários. Além de toda a estrutura técnica, albergará a parte administrativa e uma loja. Do seu varandim, será possível aos olhos dos forasteiros alcançarem o tal cenário modelado por uma natureza discreta e pelas marcas nela deixada pela presença humana. Lá ao longe, as pás dos moinhos gigantes rodam incessantes. Num plano mais aproximado, as vinhas prosseguem, discretas, o seu ciclo vegetativo.
Essa é coisa da qual já podem desfrutar os visitantes. Guiados por um dos proprietários ou pelo enólogo residente, os enófilos que ali aportarem podem ter a certeza de que serão acolhidos calorosamente na sua deambulação junto às cepas, sejam elas das castas Touriga Nacional, Tinta Roriz, Syrah, nos tintos, ou de Arinto, Chardonnay e Verdelho, nos brancos. Trata-se, na sua maioria, de encepamentos bem recentes, resultantes do processo de renovação em curso, e que apenas deverá ser dado como concluído daqui a dois anos. Uma reforma necessária para aumentar a qualidade e assim afirmar a marca, salienta Paulo Tavares da Silva, antigo comandante da Marinha que encontrou aqui o seu refúgio. “Antes, éramos apenas vendedores das uvas, que depois de vindimadas eram vendidas a outros produtores”, recorda. A assinatura de uma marca própria veio trazer responsabilidades acrescidas.

Uma visita familiar
E porque o vinho é mesmo o elemento central na Quinta da Chocapalha, é sobre ele que recaem as atenções de quem a visita. Não espanta pois que, mais do que fazer um aproveitamento turístico – igual a tantos outros – tendo como base as excelentes qualidades paisagísticas do local, a família Tavares da Silva pretenda acolher apenas os que demonstrem interesse em conhecer o resultado de um imenso labor, produzido com a fruta proveniente dos terrenos em redor. Por isso, Alice frisa bem que as refeições, disponibilizadas de preferência a grupos, “não são servidas sem ser com a intenção de provar os vinhos”. Ou seja, a parte gastronómica surge sempre como complemento das provas. E estas são sempre mistas, com os enófilos a poder levar à boca qualquer uma das cinco (em breve, seis) referências da casa, mas também directamente das barricas de estágio.
A ideia de dar a provar o que ainda está nos recipientes de madeira, especificamente os que contêm monovarietais, tem como objectivo principal mostrar aos interessados os elementos com que se fazem os vinhos da Quinta da Chocapalha. “Isso é muito didáctico, as pessoas aprendem sempre algo”, explica PauloTavares da Silva. Por isso, quem trouxer os copos até às barricas terá oportunidade de levar à boca dois tintos e dois brancos, cada um da sua casta. O pacote, com visita às vinhas e às caves, mais as provas na adega e as de vinho engarrafado, aí já numa sala própria, ficam por 30 euros por pessoa. Mas se se formar um grupo de 12 pessoas, o valor desce para 25 euros por cada uma. A dúzia é, aliás, também o número indispensável para que se forme um grupo necessário à realização de um curso de prova de vinhos, ministrado por Sandra Tavares da Silva e Diogo Sepúlveda.
Se a ideia for acrescentar a visita às vinhas e a sessão de provas a um almoço ou jantar, o preço cobrado por pessoa é de 50 euros. Pode parecer caro, mas repare que tudo isto se desenrola em ambiente familiar, beneficiando do atendimento personalizado dos donos da quinta, com quem pode desfrutar de uma refeição, enquanto discute as virtudes dos vinhos por eles produzidos. E é a própria Alice Tavares da Silva quem vende – é pena não aceitar nenhum cartão bancário – as garrafas em caixas de seis unidades. Um verdadeiro mimo.



Quinta da Chocapalha



2580-081 Aldeia Galega da Merceana

Alenquer

Tel. 263 769 317

Fax 263 769 316

E-mail chocapalha@mail.telepac.pt

Web: ver sítio www.wonderfulland.com



Visita guiada às vinhas, ou simples passeio por elas. Visita às caves e adega, com prova de monovarietais em casco e das referências engarrafadas da casa. Possibilidade de organização de refeições, mas sempre com marcação. Cursos de prova para grupos, mínimo doze pessoas.
Originalidade (máx. 2)1
Atendimento (máx. 2)2
Prova de vinhos (máx.4)3,5
Venda directa (máx. 4)3
Documentação (máx.3)2
Ligação à cultura (máx. 3)2
Avaliação global (máx. 2)1,5
CLASSIFICAÇÃO15