Home \
Enoturismo
\
Um refúgio na terra do Alvarinho
Terça-Feira, 18 de Janeiro de 2011 às 12:01
Numa velha casa do Alto Minho, que até já serviu de quartel-general das forças de vigilância fronteiriça há mais de dois séculos, uma família luso-galaica dedica-se à produção de Vinho Verde. O Alvarinho é a ali a casta rainha, representando a grande maioria do que é engarrafado.
No meio de um verde minhoto, em pleno palco de bucolismo incontestado, irrompe o Solar de Serrade. Edifício construído em meados do século XVII, seguindo uma linha de arquitectura considerada típica do Alto Minho, impõe-se pela certeza dos seus traços clássicos. Tanto no exterior como no interior, respira-se o acumular dos anos. Deve ser isto com que todos sonham quando pensam num “palacete no campo”. A casa, situada em Mazedo, no concelho de Monção, e integrada numa propriedade agrícola com uma dúzia de hectares, nos quais se produz a casta Alvarinho, não os desiludirá. Muito pelo contrário. A um passo do rio Minho e da fronteira, este é o cenário ideal para os apreciadores da tranquilidade silvestre.
Experimente-se um final de tarde estival, sentado numa cadeira colocada bem no meio do jardim romântico, e perceber-se-á o charme natural do sítio. Tal como nos Vinhos Verdes, em cuja região se insere, este é um local onde impera a frescura. Estamos bem longe dos grandes calores que se sentem, por aquela altura do ano, noutras regiões vinícolas portuguesas – não por acaso, as vindimas aqui acontecem já perto do final de Setembro. Esta revela-se, por isso, como uma boa alternativa para férias de Verão em família. Passear a pé ou de bicicleta podem bem fazer as delícias dos que encontram a felicidade nas coisas mais elementares.
Silêncio
“As pessoas da cidade que nos visitam gostam da tranquilidade e, muitas vezes, o que elas mais apreciam é sentar-se lá fora a ouvir os pássaros ou apenas a contemplar o silêncio”, conta o anfitrião Adriano Lameiro, 42 anos, num sotaque que denuncia influência espanhola. Para ser mais exacto, da sua boca sai um misto de português com um toque de galego, como se a fronteira delimitada pelo rio Minho fosse algo incerta. O que acaba por se compreender, já que Adriano nasceu no Porto – não a cidade portuguesa, mas sim um lugar do município de Salvaterra do Miño, situado do outro lado do curso fluvial, mesmo em frente a Monção – fruto da união entre uma espanhola com um português. Foram eles quem, em 1981, decidiram comprar o Solar de Serrade.
Na época, a família já possuía uma adega na zona galega das Rias Baixas, onde produzia algum vinho, e decidiu então investir na terra natal do patriarca, que também se chama Adriano. Depois de pesquisarem propriedades naquela área, acabaram por se decidir pela compra do Solar de Serrade. Uma construção belíssima, mas que se encontrava longe do esplendor actual. “Isto estava em ruínas. A primeira intervenção que aqui se realizou foi no telhado, para evitar que ele caísse”, recorda Adriano, o filho. Mas só mais tarde se avançou para uma reabilitação completa. Para resgatar o secular edifício ao avançado estado de decadência foram realizadas obras, iniciadas em 1990 e apenas terminadas sete anos depois, prevendo já a sua utilização como moradia familiar mas também como unidade de turismo de habitação.
E se esses trabalhos permitiram preservar uma parte substancial da estrutura original, obrigaram também a repensar outras áreas, tendo em vista a sua presente funcionalidade. A casa, ostentando armas de meados dos século XVII (inclui os nomes Barbosa, Marinho, Castro e Soares de Tangil) e possuindo duas torres nos flancos, entre as quais existe um corpo central mais longo e baixo, mantém no seu interior uma capela – situada no topo norte e que inclui um coro e uma balaustrada de traça “Rocaille”. Muitos dos elementos em pedra que originalmente enformavam o edifício foram conservados. No entanto, muito se perdeu em consequência de anos de abandono, pautados pela pilhagem de outras pedras de grande porte. O essencial, porém, prevaleceu.
Feitoria Do período fundador do solar pouco se conhece. Mas existe a informação de que o morgado de Serrade foi instituído pelo padre Belchior Barbosa, filho de Gaspar Barbosa, descendente da casa de Aborim. “O primeiro morgado foi o irmão do instituidor, chamado também Gaspar Barbosa, e que casou com dona Isabel Soares de Moscoso”, informa uma monografia contendo informação genealógica daquela região e na qual se pode ainda ler que, em 1704, era Francisco Barbosa Marinho o morgado de Serrade – local onde existiu, antes da construção do solar, uma feitoria inglesa que servia como entreposto na venda dos vinhos claretes de Monção.
Estes vinhos eram assim chamados por serem produzidos com castas pouco tintureiras e, juntamente com os vinhos tintos, eram exportados para Inglaterra no final da Idade Média – ainda antes da assinatura do Tratado de Windsor (1386), já se expedia vinho da região de Monção para terras britânicas, através do porto de Viana do Castelo. Tal comércio ter-se-á iniciado em 1353, durante o reinado de Dom Afonso IV. O nome Orey era aquele pelo qual era conhecido o Vinho Verde junto dos ingleses, mas que não incluía o Alvarinho tal como hoje o conhecemos. O desenvolvimento e comercialização do mesmo só se iniciaram no segundo quarto do século passado.
Apesar das reconhecidas virtudes da região e de Serrade em particular – seja na qualidade do seu solo granítico ou na exposição solar a Sul e a poente –, não existia um pé de vinha na propriedade, quando a família Lameiro a adquiriu. Por isso, a partir de 1985, procedeu-se à sua plantação, com predominância das castas Alvarinho e Trajadura, num total de 22 hectares. Uma dúzia nos terrenos à volta da quinta e a restante área em parcelas situadas não muito longe. Existem ainda superfícies diminutas com encepamentos de Vinhão, Pedral e Brancelho, os quais, em média, dão origem a 10 mil garrafas de Vinho Verde Tinto.
Enólogo galego
Até 1999, a produção era enviada na totalidade para a Adega Cooperativa de Monção. Foi nessa altura que se procedeu à construção e entrada em funcionamento da actual adega da propriedade – na estrutura original do solar existia uma área que desempenhava, noutra época, tais funções. Resolvido esse problema operacional, a empresa familiar criada para o negócio vínico, sob a designação SAVAM (Sociedade Agrícola Vinho Alvarinho de Monção), tem vindo a comercializar as marcas Solar de Serrade (Alvarinho) e Menanços (Mistura de Alvarinho com Trajadura), além do tal tinto. Um trabalho realizado sob a batuta do enólogo galego Carlos Blanco, que se orgulha da grande variedade de perfis existente nos talhões à sua disposição.
Qualquer altura é boa para visitar Serrade, mas, como se calcula, o período das vindimas constitui uma excelente oportunidade para o fazer. O momento alto na vida de toda a propriedade que produz vinho acaba por ser, também ali, o que mais gente atrai. “Costumam vir grupos para participar ou apenas observar como se faz a bebida que tanto apreciam. Muita gente gosta de se inteirar do processo todo”, diz Adriano Lameiro, valorizando essa ligação emocional das pessoas a um vinho que, em média, no conjunto das suas três referências, resulta em pouco mais de 80 mil garrafas. Os principais mercados são os da Suíça, França, Estados Unidos, Espanha, Canadá e Holanda.
Os que desejem conhecer melhor essa actividade, ou apenas passar uns dias rodeados pela vinha, podem ficar alojados no solar que, em 1801, serviu de residência e quartel-general do Marquês de La Rosiére, francês ao serviço de Portugal e comandante das forças de vigilância de fronteira. Um painel de azulejos ao cimo da escadaria interior evoca-o. Os hóspedes podem ficar alojados num dos seis quartos duplos ou numa das duas suites, numa envolvência de assumido classicismo, salientado pelos tectos tradicionais em madeira, pelo mobiliário, tapeçarias, louças, azulejaria ou pelas salas de estar com lareira. Mas, parece-nos, os dias de calor que se perfilam pedem mesmo é um Alvarinho bem fresco, bebido lá fora, à sombra de uma das frondosas árvores do jardim.
O solar foi resgatado do estado de ruína pela família Lameiro.
Em Serrade existia, no século XIV, um feitoria inglesa de venda de vinhos.
O silêncio apenas é quebrado, sem sobressalto, pelo cantar dos pássaros.
Solar de Serrade
Mazedo
4950 – 280 Monção
Telefone: 251 654 008
FAX: 251 654 041
Email: quintadeserrade@clix.pt
Web: www.solardeserrade.pt
GPS: 42° 3'10.39"N / 8°29'55.85"O
O Solar de Serrade não costuma servir refeições, com excepção do pequeno-almoço. Mas a quinta tem uma sala que pode ser alugada para almoços ou jantares de grupo. Uma boa solução, para quem lá ficar alojado, será procurar a oferta de restauração da vila de Monção, a apenas três quilómetros.
Classificação:
Originalidade (máx. 2): 1,5
Atendimento (máx. 2): 1,5
Prova de vinhos (máx.4): 3
Venda directa (máx. 4): 3
Arquitectura (máx. 3): 2,5
Ligação à cultura (máx. 3): 3
Ambiente/ Paisagem (máx. 2): 2