Home \ Notas Soltas \ Jantar com Jonatham

João Geirinhas

Quarta-Feira, 18 de Fevereiro de 2009 às 15:26
Gostei muito de jantar com Jonatham Nossiter mas gostei ainda mais de jantar com Paula, sua mulher, uma brasileira de olhos doces, sorriso aberto e muito charme que o acaso fez sentar ao meu lado na mesa do Vírgula.

Paula falou-me também de vinhos, muitos, mas de vinhos com gente dentro. Para os Nossiter, ficou ali claro naquela conversa o que já tinha antevisto no Mondovino, os vinhos nunca são só vinhos, são o terroir onde nasceram, são o ambiente e as tradições culturais que lhes moldam o carácter, são sobretudo as pessoas que os fazem. Mas para além dos vinhos, Paula falou das terras onde viveu, de algumas das experiências que acumulou. E contou estórias e muitas outras coisas com o entusiasmo dos revelados. Como do tempo em que viveu em Itália e descobriu o Mozzarella, o queijo de leite de bufala de Campana. “Também gosto muito”, atrevi-me a dizer. “João, não tem nada a ver”, cortou-me logo, “estou a falar de um queijo fresco, acabado de fazer pela manhã, cremoso, quase que se derrete na mão, em que na tarde do mesmo dia, já não é considerado fresco, você entende?” Entendo, pois claro! Para os Nossiter a coisa é estritamente artesanal, única, irrepetível ou… não é. Daí o seu desprezo absoluto por tudo a que cheire a “indústria”, massificação, marketing, estratégias comerciais, críticos, classificações e outras malfeitorias. O mundo de Nossiter é colorido, os tons são vivos e vibrantes, e exerce um verdadeiro fascínio para quem o ouve e assim parece participar naquele regresso à aurea mediocritas, o tempo em que fomos felizes e que tudo era simples e sem complicações. Mas o radicalismo de Nossiter é sobretudo ideológico, fundado na recusa deste consumismo que destrói a identidade e, na sua opinião, prostitui os gostos. Quando dizemos que o mercado pede vinhos com muita fruta, concentrados, alcoólicos, um tudo-nada doces, “à Parker”não é na verdade o mercado. Este gosto dominante, na arquitectura do pensamento de Nossiter, resulta sobretudo do poder do dinheiro e de tudo o que este implica. Algo parecido com aquilo que em tempos se chamou “aparelho ideológico” neste caso não do Estado mas do Poder. Parker e outros críticos, as revistas, as notas, os concursos onde os vinhos aparecem cotados e ordenados não são mais que simples instrumentos na grande massificação, na grande mistificação do gosto. “Le goût et le pouvoir” é precisamente o título do livro cujo lançamento justificou a sua vinda a Portugal, título que se perdeu na tradução portuguesa da Sextante Editora …por razões comerciais!
Não é esta a única incongruência do autor. Este sistema de valores que está implícito na visão do mundo de Jonatham Nossiter e que atravessou o polémico filme Mondovino e também agora o livro só seria praticável se reduzido a uma pequena elite de consumidores. Sejamos francos! Os vinhos únicos que tanto entusiasmam Nossiter e são expressão do seu terroir de excepção são de facto notáveis e devem ser preservados. Mas são escassos e caros, inacessíveis para o comum dos consumidores. O advento do Novo Mundo à produção de vinhos e a estandardização de um certo estilo permitiu que muitos consumidores de outros lugares e de outras condições pudessem ter acesso ao seu consumo regular e daí retirassem prazer. Porque afinal o “gosto” não é só produto do “poder”. É-o também do prazer.
OS MAIS RECENTES
(1756 visualizações)
(1964 visualizações)
(1590 visualizações)
(3685 visualizações)