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Reportagens
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Às compras no litoral alentejano
Texto António Falcão Fotos Ricardo Palma Veiga
Quarta-Feira, 11 de Fevereiro de 2009 às 18:16
Paulatinamente vão aparecendo novas escolhas para os enófilos e gourmets do litoral norte do Alentejo. Fomos visitar três lojas em Porto Covo, Sines e Grândola que têm objectivos e âmbitos ligeiramente diferentes mas oferecem sempre algo de novo aos apreciadores.
Destino de férias cada vez mais usado por famílias de Lisboa (e não só), o litoral norte alentejano é já hoje um ponto de encontro de enófilos e amantes da boa comida. Os restaurantes mais sofisticados vão aparecendo paulatinamente, e só não aparecem mais porque falta a esta zona uma ainda maior presença de habitantes com poder de compra, ao estilo do Algarve. Mas o panorama está em vias de mudar com a entrada em força do grupo Sonae, na zona de Tróia e os fortes investimentos já efectuados e a realizar pelo grupo Espírito Santo (na gigantesca Herdade da Comporta). Por outro lado, muita gente já vai tendo casa na faixa que vai de Tróia para sul, usando-a para férias e fins-de-semana. Afinal, Lisboa fica a menos de uma hora de caminho e o sossego está assegurado. Igualmente assegurado um fornecimento regular de clientes para vinhos e produtos gastronómicos mais elaborados. E estas três propostas estão atentas a isto.
Um oásis em Porto Covo
O Minimercado Tropicação é um fenómeno. A primeira vez que lá entrei, há cerca de meia dúzia de anos, fiquei abismado com o portefólio desta pequena loja inserida numa pequena mas linda povoação. Como era possível haver aqui um conjunto de vinhos de alto nível, judiciosamente escolhidos? E, ao mesmo tempo, oferecer ao visitante um bom naipe de produtos considerados gourmet? A explicação é-nos dada pelo dono, Júlio Caçoete, que fundou este loja em 1996. Ele veio de Tróia, onde era administrativo num supermercado concessionado à Torralta. Previu a mudança que se iria operar na zona e decidiu investir no seu próprio negócio. Optou por Porto Covo e comprou este espaço. Se Porto Covo é uma pequena povoação, tem por outro lado muita gente de fora a passar férias e fins-de-semana, gente com alto poder de compra e gostos requintados. E por isso Júlio e a esposa Maria Aurora apostaram num segmento de mercado mais alto. “Tinha que ser diferente dos outros minimercados”, garante ele. Primeiro pelo cuidado colocado na apresentação e na limpeza do estabelecimento. E depois porque Júlio, amante de bons vinhos, começou a comprar néctares de qualidade e a chamar clientela. O efeito passa-palavra funcionou muito bem e não tardou a que o estabelecimento fosse ponto de encontro obrigatório ao fim da tarde. Júlio já se sente à vontade para aconselhar harmonias de vinho com comida e a clientela fiel procura vinhos com fama. E faz bem: aqui a escolha é muito boa, embora não seja vasta (o espaço não dá para mais). Não faltam sequer vários vinhos ícones – como o Barca Velha, naturalmente – mas os mais caros são o Porto Barros de 1935 (€678) e o Quinta do Ribeirinho Pé Franco, de Luís Pato (€198). Os preços são razoáveis e só não são melhores porque Júlio Caçoete tem um negócio muito sazonal. O portefólio de bebidas inclui ainda uma pequena mas boa selecção de Portos, Moscatéis, champanhe, whiskies, aguardentes e outros destilados.
Na área gourmet há de tudo um pouco: dos queijos aos enchidos, passando por foie gras (de lata), risottos, azeites, vinagres, etc, etc. A única falha é mesmo os acessórios: tirando o saca-rolhas, não há um copo, decantador, filtro ou bomba de vácuo. Júlio diz que não tem solicitações mas que pode arranjar copos e outros acessórios se o cliente o pretender.
No final, fica ao visitante a sensação de ter entrado num oásis. Júlio pode ser considerado uma ‘ave rara’ na povoação, mas o conceito funciona bem.
A Talha, com vontade de crescer
Subimos até Sines e paramos ao pé do enorme Centro das Artes, no seio desta cidade. É aqui ao pé que, desde Novembro último, Sines conta com uma das maiores lojas de vinho do país. A Talha nasceu de um espaço com 300 metros quadrados que Luís Manuel da Silva já possuía. Armazenista de material eléctrico, Luís Silva há muito que gostava de vinhos e tem inclusive a sua garrafeira privada. Logo à entrada da loja pode visualizar um enorme mapa com as regiões vinícolas do país e uma cave climatizada com alguns vinhos lá dentro. Luís Silva diz que ambos servem para “educar os clientes menos conhecedores”; a cave, por exemplo, destina-se a informar as temperaturas a que os vinhos devem ser bebidos. Da mesma forma, tanto o filho Nuno como as funcionárias da loja estão a receber formação, ministrada por enólogos.
A compra do stock começou há bastante tempo, à medida que pai e filho iam visitando mostras de vinhos e outras lojas. A maioria foi adquirida directamente aos produtores e por isso não espanta que a maior parte do vinho seja originário do Alentejo. Mas encontra aqui néctares de todas as regiões, assim como alguns estrangeiros. Outra vantagem da loja é o fresco armazém, numa cave.
Espaçosa e bem iluminada, a Talha tem as regiões separadas por estantes, o que facilita a procura. Apenas alguns ícones, como o Barca Velha 2000 (€184) ou o Pera Manca 2003 (€188) estão num espaço à parte, mais destacados. Não faltam os espumantes, uma boa secção de Vinho do Porto e Moscatéis, assim como toda a espécie de destilados. A gama de acessórios é também boa, especialmente de copos.
Quanto à escolha, nota-se ainda alguma irregularidade nos critérios, como se fossem apenas os distribuidores a escolher os produtos. Faltam, por exemplo, alguns vinhos de topo, especialmente do Douro, mas é normal que o portefólio seja afinado com o tempo. Afinal, são só três meses de actividade. Também por isso não há ainda um histórico de vendas, nem grandes histórias para contar. Os preços são, no geral, agradáveis.
Finalmente, pode aqui encontrar produtos gourmet como enchidos de porco preto, queijos do Alentejo, azeites, conservas, chás e cafés, entre outros.
Com mais alguma afinação e dinamização, A Talha pode vir a ser um estabelecimento de referência para os anos vindouros: condições técnicas não lhe faltam, isso é certo.
Dom Nuno com tradição
Um espaço algo curto, bem no seio da “vila morena”, como cantava José Afonso, alberga esta loja de vinho e produtos gourmet. Jorge Ferreira é o gestor e um dos quatro irmãos que está ligado ao ramo das bebidas. De facto, a garrafeira D. Nuno está ligada a um distribuidor de bebidas local, e apenas foi criada para produtos topo de gama, há quase 20 anos. Alguns privados queriam adquirir vinhos directamente à distribuidora e esta foi a solução encontrada.
A loja, instalada em plena esquina na rua de acesso norte à vila, não é grande mas está decorada com muito gosto e nota-se critério e conhecimento na escolha dos produtos, apesar da exiguidade da amostra, por questões de espaço. Aqui entramos num mundo mais profissional, gerido por gente que está no ramo há muito tempo. Pode assim encontrar vinhos menos comuns, a preços competitivos. Um Barca Velha 1991, por exemplo, vende-se a €110; o Torre do Esporão a €95. Apesar de a loja ter os ‘best-sellers’ mais comuns, Jorge Ferreira diz-nos que “os meus clientes são cada vez menos fiéis a marcas; querem experimentar novos vinhos”. E nota ainda que têm seguido para uma gama de preços mais elevada com o passar do tempo. De facto, uma parte dos clientes vem de fora, da costa alentejana e Jorge Ferreira diz-nos que cada vez há mais conhecedores. Isso pode justificar a escolha de vinhos como o Anima ou o Cavalo Maluco.
A maioria das vendas recai no Alentejo (cerca de 70%), logo seguido do Douro e da região dos Vinhos Verdes. Cerca de 80% são tintos mas a proporção está a mudar na direcção dos brancos, tal como em todo o país, aliás. De resto, pode aqui encontrar muitas outras bebidas para além do vinho, dos generosos (poucos ‘Portos’ mas bem escolhidos) aos destilados, passando por espumantes.
Mas nem só de bebidas vive a garrafeira D. Nuno. Há uma boa selecção de acessórios e muita variedade de produtos gourmet, com destaque para os queijos e enchidos de porco preto. A própria loja possui o seu catálogo de Natal e cabazes próprios com caixas vindas de Itália. No final ficou-nos a sensação de uma loja que trata bem os vinhos e os enófilos. Só por isso merece bem uma visita.
As três lojas
Minimercado Tropicação
R Salvador Vilhena 17
7520-437 Porto Covo
Tel. 269 905 495
suptrop@gmail.com
Horário: Inverno: 9:00-13:00 e 15:00-19:00 Encerra Domingo à tarde e 2ª feira. No Verão abre todos os dias., das 8:30 às 20:00.
Garrafeira A Talha
R. João Soares 3 A e B
7520-216 Sines
Tel. 269 870 562
geral@lms.pt
Horário: 2ª a Sábado das 9:00 às 19:00
Garrafeira D. Nuno
Rua D. Nuno Alvares Pereira, 113ª
7570-239 Grândola
Tel. 269 441 074
www.jdferreira.com/garrafeira
GPS: N 38.17742 – W 8.56711
Horário: 2ª a 6ª das 9 às 19:00. Sábados das 9 às 13:00