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António Falcão. Fotos de Ricardo Palma Veiga

Segunda-Feira, 14 de Setembro de 2009 às 16:06
Dois grandes empresários decidiram fazer vinha e vinho no Algarve. Um comprou uma quinta. Outro transformou a que já possuía. Com paixão, obstinação e folga financeira, os resultados só podem ser bons, pois então.

Algo está a acontecer no Algarve do ponto de vista vinícola. Já considerada a terceira região mais rica do país (medida em Produto Interno Bruto per capita e depois de Lisboa e da Madeira) têm surgido no Algarve alguns produtores que apostam em vinhos de muita qualidade e que estão paulatinamente a mudar para melhor uma imagem da região que se vinha deteriorando com o tempo. A juntar-se a produtores/marcas como Adega do Cantor, Morgado da Torre e Barranco Longo estão agora mais dois projectos que, apesar da reduzida dimensão, não olham a despesas. Uma mera dúzia de quilómetros separa a Quinta de Mata Mouros da Quinta dos Vales mas a ambição é a mesma: fazer os melhores vinhos que seja possível.


Á beira de Silves, na Quinta de Mata Mouros

O nome é, no mínimo, estranho, mas de facto não tem nada a ver com carnificinas de outros tempos. O nome da quinta decorre de ali ter havido uma mata muito aprazível que era dos ‘mouros’. Esta enorme quinta (120 hectares, grande para o Algarve) é do empresário Vasco Pereira Coutinho e está situada mesmo junto a Silves. Conta a história que, no séc. XIX, era pertença de um tal Domingos Vieira que aí dava grandes banquetes e por essa e outras formas acabou por dissipar a fortuna. Passou depois para o Conde de Silves e só depois, por compra, foi parar à família deste empresário. Desde há muito que a quinta tem fama de produzir bons frutos, especialmente as romãzeiras. Um bom prenúncio para a vinha, aliás.
A tomar conta da parte agrícola (e da vinha e do vinho, claro) está o jovem Nuno Magalhães, filho do conhecido professor de viticultura com o mesmo nome. Amante do campo, Nuno está desde início no projecto e o seu pai também deu uma ajuda. O nascimento do projecto vinícola, em 2000, foi ainda coordenado pelo famoso enólogo e empresário João Portugal Ramos. Hoje é Mário Andrade quem comanda as operações na adega. Mário, recorde-se, é o responsável pela operação ribatejana de João Portugal Ramos em Almeirim, a Falua. Nuno Magalhães e Mário Andrade acompanharam-nos na visita às vinhas e adega. Soubemos assim que a vinha foi plantada em 2000, em zona colinosa, de onde se avista, de forma magnífica, a cidade de Silves e, ao longe, a serra de Monchique.
No total são 12 hectares de videiras, com as castas Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon, Aragonês e Sousão (que substituiu a Trincadeira por reenxertia: “não se adaptou”, diz Nuno). O Sousão foi escolhido para “dar acidez e estrutura ao lote”, diz Mário Andrade. Salta à vista o cuidado posto na vinha, tratada com todos os carinhos. Não falta a imprescindível rega, até porque as plantas assentam sobre uma camada de rocha–mãe e a espessura do solo argilo-calcário não é grande. Por isso, Nuno Magalhães diz que as produções nunca são grandes: “o Cabernet, por exemplo, só dá 3 a 4 toneladas por hectare”. A zona é batida pelos ventos e por isso quase não há problemas de fungos e doenças. Nuno Magalhães garante que “quase não fazemos tratamentos”. As vindimas são aqui feitas à mão, para tabuleiros. Um luxo, claro. Mas há uma segunda escolha e por isso só entram na adega bagos (sim, bagos!) em perfeito estado de sanidade.
Desde o início que há planos para uma adega mas o projecto inicial de fazer algo diferente teve que ser abandonado. Vasco Pereira Coutinho queria uma adega espectacular, junto à vinha, com uma cave enterrada. As tremendas burocracias acabaram por inviabilizar o propósito e o gestor teve que optar, em vez disso, pela cuidada adaptação de armazéns já existentes.
Com menos design mas a mesma tecnologia, a adega vinifica o tinto da casa, e um rosé. Este ano toda a vinificação foi iniciada nos dois lagares de pedra calcária, com pisa a pé, à moda do Douro. Os lagares têm controlo de temperatura por baixo da fina pedra de base. Este sistema inovador obriga a que o frio seja ligado um mês antes (!) da vindima para ser eficaz.
Parte do vinho vai depois para as cubas de inox e de seguida para barricas de carvalho francês de 300 litros: porque, diz o enólogo, faz menos oxigenação, ideal para climas quentes, e porque marca menos os vinhos com notas de baunilha. Tal como no resto, aqui não se fazem poupanças: material de topo como, por exemplo, a prensa vertical e a bomba peristáltica para a transferência de massas.
A gama de vinhos é composta pelo tinto Ypsilon e pelo rosé Xelb. O rosé de 2007 é feito com Aragonês mas para 2008 irá ter Touriga Nacional. Quanto ao Ypsilon, está na colheita de 2006 e resulta de um lote de várias castas. Mário Andrade quer “tudo muito simples, sem grandes manipulações”. Usa por isso leveduras indígenas e costuma realizar maceração antes da fermentação, para extrair mais alguma cor e aromas.
Nos planos está uma loja de vinhos e, quem sabe, uma parcela para vinhos brancos. O projecto tem assim cabeça tronco e membros e se, quanto a nós, os vinhos ainda não atingiram o nível de qualidade de topo, estamos em crer que o irão alcançar dentro de poucos anos. Assim o ‘terroir’ o permita, porque o resto está lá, a começar pela vontade de fazer sempre melhor.


No mundo de Karl Heinz Stock

Mas Vasco Pereira Coutinho tem já um outro concorrente. Chama-se Karl Heinz Stock, tem 56 anos, é alemão e um empresário polivalente. Com grandes negócios em imobiliário e no petróleo, na Rússia (chegou a guerrear com Abramovich), e depois de uma vida frenética, decidiu reformar-se e adquirir uma quinta onde ele e a família pudessem levar uma vida mais calma. Uma das suas primeiras escolhas foi a África do Sul mas por várias razões acabou por escolher o Algarve. Começou primeiro ao pé de Silves, há 12 anos, com uma quinta pequena (2,5 hectares), mas rapidamente decidiu que não estava ao seu feitio. Adquiriu por isso esta quinta em 2007, junto à povoação de Estômbar, com 50 hectares. A Quinta dos Vales só tinha vinha, árvores de fruto e casas velhas. Em 18 meses, Karl fez aqui uma verdadeira revolução, gastando cerca de sete milhões de euros, a maior parte em edifícios. Nasceram assim três casas e cinco apartamentos, duas piscinas, duas saunas e inclusive um pequeno jardim zoológico com vários animais, como cervos, javalis, cavalos, porcos vietnamitas, lamas e mesmo cangurus. Ele disse-nos que o ritmo de construção foi alucinante, incluindo fins-de-semana.

Mas o que mais impressiona por quem lá passa ao pé (a quinta está ao lado da Nacional 125) são as esculturas de grande tamanho e cor que povoam uma parte da quinta. Parte delas é criação do proprietário, que usa fibra de vidro e poliéster para criar formas generosas que parecem de pedra. Outras esculturas são de metal ou pedra, de vários artistas. A escultura, já se vê, é uma paixão de Karl. É por isso que as novas acomodações vão receber dentro em breve jovens escultores de todo o mundo.
A outra paixão de Karl é a natureza. A maioria da área é para a agricultura e não espanta assim que existam muitas árvores de fruto (alfarrobeiras, laranjeiras, oliveiras, limoeiros, etc). Mas o que aqui predomina é a vinha. Mais concretamente 17 hectares de plantas, das quais 6 de castas brancas. O encepamento é variado, com castas nacionais (a maioria) e internacionais e as plantas têm entre 1 e 7 anos de idade. Mas não só há reestruturações em curso, como o Castelão (“só dá bons vinhos com podas agressivas”, diz Karl); há ainda novas plantações, especialmente de castas brancas, que vão ter mais 5 hectares para. Aqui vão entrar talhões de Alvarinho (“um risco”, diz Karl), Viognier, Verdelho, Arinto e Síria.
E que vai este alemão fazer com as uvas? Karl Heinz Stock segue o célebre dito dos apreciadores das coisas boas da vida: “contenta-se sempre com o melhor”. Diz-nos directamente que “a minha visão, antes e agora, é a de produzir o melhor vinho do Algarve”. Não quer produzir mais de 100.000 litros de vinhos por ano nem quer ganhar dinheiro com o vinho. Ele acha que arte e vinho são complementares, criam simbiose e que ambos soltam a língua e a criatividade, e isso basta-lhe. Mas também não quer perder dinheiro e por isso já começou a estabelecer contactos para vender o seu vinho no mercado internacional. E já começou a cobrar dinheiro pelas visitas à quinta.
Para a feitura do vinho a orientação enológica ficou a cargo da dupla Paulo Laureano e Dorina Lindemann, esta mais conhecida pelo seu trabalho na cidade alentejana de Montemor-o-Novo com os vinhos Plansel. Ambos trabalham na adega da quinta, impecavelmente equipada e que tem inclusive uma câmara para fermentação de brancos e uma cave de barricas, enterrada. Como se calcula, não há poupanças em madeira de alta qualidade. Nem na magnífica sala de provas, com capacidade para 60 pessoas.
Neste momento já existem três vinhos, da marca Marquês dos Vales Selecta e todos de 2007: um tinto colheita, um branco e um rosé. Um reserva tinto está também a sair.
Karl acredita na região e no seu vinho, de que provou já alguns exemplos “muito bons” (salienta, por exemplo, os do Barranco Longo). O seu branco, diz “está já entre o que de melhor se faz na região” e ficou surpreendido com o tinto.
Não é preciso estar muito tempo com Karl para perceber que é um homem obstinado e determinado. Para a primeira colheita, os resultados não são nada maus. Mas não nos surpreenderia nada que, num futuro próximo, saíssem daqui vinhos de muito alta qualidade.
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