Home \ Reportagens \ Vindimas 2008: um ano de referência

António Falcão

Quinta-Feira, 12 de Fevereiro de 2009 às 11:52
Nas regiões em que as vindimas começaram e terminaram mais cedo, a qualidade das uvas promete belos vinhos da colheita de 2008. Nas regiões mais frias, como as dos Vinhos Verdes, Dão, Estremadura e Bairrada, tudo aconteceu de maneira semelhante, mas há algumas pequenas variantes…

Não há já dúvidas. Este é definitivamente um ano histórico em termos de qualidade. Dos Vinhos Verdes a Trás-os-Montes, indo até ao Algarve, a opinião é unânime: 2008 vai ter uma qualidade média muito boa, talvez a melhor das últimas décadas. Para isso contribuíram três factores fundamentais: a excelente sanidade nas uvas, quase sem doenças ou podridões, a monda natural efectuada na altura da floração, que reduziu a produção, e, finalmente, uma vindima sem chuva. Este último factor foi preponderante nas regiões mais frias e onde costuma chover mais cedo, tradicionalmente a partir do equinócio, que ocorre a 21 de Setembro. Como não choveu, ou caiu muito pouca água, houve tempo para tudo, sem pressas. João Carvalho Ghira, presidente da CVR de Lisboa (ex-Estremadura), disse-nos que “há já uns anos que não havia vindimas em condições tão favoráveis”.
O que, diga-se, foi especialmente benéfico porque em geral as maturações estavam atrasadas… Talvez por isso alguns agricultores, com medo da potencial chuva, acabaram a vindimar antes do tempo. Terão sido estes os casos em que os vinhos nunca sairão tão bons: sem as maturações estarem completas, os vinhos tendem a adquirir adstringência excessiva, aromas e sabores herbáceos e verdes, desagradáveis ao olfacto e palato.
Infelizmente, nem tudo são rosas. Tal como se verificou nas zonas mais quentes, nas regiões mais setentrionais também houve quebras assinaláveis de produção. João Carvalho Ghira, calcula a quebra em 25 a 30% face ao ano passado. Infelizmente, diz, “a melhoria qualitativa não compensou a quebra, porque os preços da uva mantiveram-se”. Até porque é do seu conhecimento que tem entrado muito vinho de Espanha, impedindo a subida dos preços dos vinhos nacionais, especialmente os de gama baixa. A maior quebra terá sido nos vinhos brancos, calcula o chefe da CVR de Lisboa, o qual foi reconduzido no cargo por eleição depois da reestruturação ocorrida há alguns meses. Outro ponto que referiu foi a dificuldade em algumas fermentações maloláticas.

Do Norte ao Centro
“Tudo é importante mas é o final que conta”. É assim que Anselmo Mendes começa a nossa conversa sobre as vindimas na região dos Vinhos Verdes. Certamente um dos enólogos mais conhecidos nesta denominação de origem, Anselmo diz-nos que “até 15 de Setembro estava tudo mal; os atrasos na maturação eram preocupantes. Mas, afinal, correu tudo bem porque houve uma maturação lenta e, melhor ainda, houve tempo para vindimar”.
Especialista em Alvarinho, Anselmo Mendes garante que o de 2008 é mais aromático que o do ano passado e é mais ácido. E não houve quebra de produção. A outra casta com que costuma trabalhar é o Loureiro, e aqui as coisas não correram tão bem: os vinhos saíram algo desequilibrados e com notas verdes. A casta Avesso portou-se melhor, mas ainda assim “abaixo do que conseguimos em 2007”, considera. À parte o Alvarinho, Anselmo calcula uma quebra de produção a rondar os 20%, face a 2007. Os números emitidos pela CVR dos Vinhos Verdes mostram que isso de facto não sucedeu em toda a região. Houve até um pequeno aumentos, de 3,43%, face a 2007. Em 2008, produziram-se 71,9 milhões de litros de Vinho Verde, ainda assim um pouco abaixo da média dos últimos cinco anos.
Anselmo Mendes possui adega e produção própria (e dá assistência e consultoria a vários outros produtores). Num balanço geral, considerou que, no que concerne aos Vinhos Verdes, “o ano de 2007 foi excelente mas em 2008 só há alguns vinhos excelentes”. E refere que “2008 foi um bom ano para medir o potencial de uma região e redefinir os limites do que pode produzir bons vinhos”.
Ouvimos ainda Anselmo Mendes sobre o Dão, onde tem uma vinha de bom tamanho, junto a Tábua. E dá ainda assistência à Quinta da Aguieira, da Borges. E do que viu, colheu, cheirou e provou, só pode falar bem: “apesar de haver casos em que as maturações estavam atrasadas, quem esperou por Outubro para vindimar teve vinhos entre o regular e o excelente. Quem vindimou cedo, com medo da chuva, ficou com vinhos banais”.
Em mais pormenor, Anselmo Mendes falou das castas mais utilizadas: “a Tinta Roriz está muito bem e a Touriga Nacional mostra-se muito floral e com uma acidez fantástica”.
No geral, este enólogo diz que “este foi o ano de equilíbrio do Dão; deu vinhos muito aromáticos, mais puros, mais regionais, sem sobrematurações”. E acrescenta que “foi tudo o que tínhamos em 2007 e mais qualquer coisa…”.

Mais a Sul
Mais a Sul também há optimismo. Bernardo Nobre, gerente da Sociedade Agrícola da Labrugeira, que faz os vinhos Vale das Areias na zona de Alenquer, mostrava-se satisfeito com a vindima de 2008. Nas planícies protegidas dos ventos marítimos pela Serra de Montejunto a vinha sofreu uma quebra de produção (cerca de 30%), mas apenas nas castas brancas. Nas tintas, como havia novas vinhas a entrar em produção, a quantidade chegou mesmo a subir face a 2007. Bernardo considerou que o clima foi em geral “mais estável que em 2007, com menos picos de calor”. Por isso, aconteceu um fenómeno estranho: as castas mais precoces adiantaram a maturação, as de ciclo mais longo atrasaram. Foi o caso da Touriga Franca, que Bernardo Nobre acredita não ser adequada à região: “portou-se mal na adega”, garante, e deverá ser reenxertada. Isto apesar da vindima dos tintos ter começado em 15 de Setembro e só ter terminado um mês depois. As uvas brancas foram colhidas mais cedo, nos finais de Agosto, e acabou no início de Setembro. O Sauvignon Blanc tinha 13 a 13,5 graus de álcool provável, mais que o Arinto, colhido mais tarde e que vai entrar no lote com o Sauvignon.
Também José Neiva Correia não se pode queixar. Este gestor e enólogo, certamente um campeão nacional da relação preço-qualidade-quantidade, possui extensas vinhas nas regiões de Alenquer e Torres Vedras. Um sintoma da boa qualidade, alega, está nas próprias uvas: “não me lembro de provar uvas tão saborosas na altura da vindima, em todas as castas”, garantiu-nos. Tudo foi colhido até 21 de Setembro, graças às várias máquinas que aluga anualmente. Apesar da enorme área que possui, José Neiva Correia afirma que as maturações fenólicas estavam precoces e que “não havia um bago podre”. O único ponto negativo foi realmente a quebra de 26% na produção, sensivelmente igual nas castas brancas e tintas. No final, não hesita em dizer que “esta foi a melhor vindima que fiz até agora”.

Um ano de referência
Depois do que expusemos, será que só vamos ter bons vinhos de 2008? De facto, o teor das reportagens é bastante positivo. Nenhum dos muitos entrevistados, de norte a sul, estava insatisfeito com a qualidade da produção obtida este ano (quanto à quantidade, as opiniões variavam, claro). Temos que relativizar, contudo, e não cair no erro fácil de generalizar. Os produtores de vinho com maiores conhecimentos e mais meios técnicos não tiveram dificuldade em produzir uvas de grande qualidade em 2008. Fizeram, por exemplo, os tratamentos a tempo e horas, assegurando uvas sãs a entrar nas adegas. E como as produções foram em geral baixas, as plantas concentraram os recursos em menos cachos, produzindo frutos mais aromáticos, mais equilibrados e mais saborosos. As ovelhas negras neste panorama são geralmente as mesmas de sempre: os produtores com pouca capacidade de resposta, ou por falta de conhecimento ou por falta de meios. Tratamentos não realizados ou feitos tarde de mais, vindimas efectuadas demasiado cedo e o mau acompanhamento enológico são falhas que tarde ou nunca dão como resultado bons vinhos. Infelizmente, não terão sido falhas assim tão raras como isso, especialmente no escondido mas gigantesco mundo dos pequenos produtores de uva. Felizmente, por outro lado, o mercado encarrega-se de ir fazendo, a pouco e pouco, a separação do trigo e do joio.
Seja como for, as sempre fundamentais condições climatéricas foram muito propícias à criação de grandes vinhos em 2008. Os primeiros ‘exemplares’ (os brancos) deverão sair no início da Primavera de 2009. Quanto aos tintos, sairão pouco depois disso, mas apenas os de consumo corrente. Os grandes vinhos, como os reservas, só mais tarde, e alguns só em 2010 ou mesmo depois. Mas se me perguntarem se deveremos comprar vinhos de 2008, a resposta, essa, é claramente positiva. A qualidade média a nível nacional será certamente das melhores de que há memória. É por isso que 2008 será um ano de referência.
OS MAIS RECENTES
(2257 visualizações)
(2222 visualizações)
(2191 visualizações)
(1351 visualizações)